Terafim

Terafim (do hebraico teraphim) designa uma categoria de objetos rituais ou ídolos domésticos mencionados em diversos textos da Bíblia Hebraica e em achados arqueológicos do Antigo Próximo Oriente. Embora a etimologia exata da palavra permaneça um tema de debate académico, sendo por vezes associada a raízes que significam «curar» ou «ancestral», o termo é gramaticalmente um plural de excelência ou intensidade, frequentemente utilizado para se referir a uma única estátua ou a um conjunto de figuras. Estas peças possuíam uma função central na religiosidade popular e doméstica, operando fora do culto oficial centralizado, e eram frequentemente associadas à proteção do lar, à consulta oracular e à legitimação de direitos hereditários. A sua presença na narrativa bíblica é marcada por uma tensão constante entre a prática cultural enraizada e as proibições proféticas contra a idolatria, refletindo a complexa transição das tribos de Israel de um ambiente politeísta ou henoteísta para o monoteísmo estrito.[1][2][3][4][5][6][7][8][9]
A morfologia e as dimensões dos terafim parecem ter variado consideravelmente conforme o contexto histórico e a finalidade específica descrita nos relatos. No livro do Génesis, durante a fuga de Jacó, Raquel rouba os terafim de seu pai, Labão, escondendo-os na sela de um camelo, o que sugere que estas estatuetas poderiam ser pequenas e portáteis, facilmente ocultáveis. Em contraste, o livro de Samuel descreve um episódio em que Mical, esposa de Davi, coloca um terafim na cama para simular a presença do marido e enganar os guardas de Saul, o que implica uma figura de dimensões humanas ou, pelo menos, suficientemente grande para imitar a forma de um corpo sob lençóis. Arqueologicamente, pequenas figuras de terracota ou metal encontradas na região do Levante e na Mesopotâmia são frequentemente identificadas como possíveis terafim, servindo como representações de divindades tutelares ou antepassados falecidos que zelavam pelo bem-estar da linhagem familiar.
Para além da sua função como amuletos de proteção, os terafim desempenhavam um papel crucial como instrumentos de adivinhação e cleromancia. Textos bíblicos e extrabíblicos indicam que estas figuras eram consultadas para prever o futuro ou obter orientação divina em momentos de incerteza, muitas vezes em conjunto com o éfode ou outras práticas oraculares. No livro de Juízes, a narrativa de Mica ilustra a integração destes objetos num santuário privado, onde serviam como mediadores da vontade espiritual. Contudo, com a reforma de Josias e a crescente influência do pensamento profético, o uso dos terafim passou a ser severamente condenado, sendo classificado como uma forma de abominação e feitiçaria. Profetas como Zacarias criticavam duramente aqueles que buscavam respostas nos terafim, argumentando que as suas visões eram falsas e as suas promessas vazias, consolidando a transição para uma fé baseada exclusivamente na palavra de Javé.
Um dos aspetos mais intrigantes dos terafim reside na sua dimensão jurídica e sociológica dentro das sociedades semíticas antigas. Algumas interpretações sugerem, com base em tabletes encontrados em Nuzi, que a posse dos deuses domésticos (ou terafim) poderia estar vinculada ao direito de primogenitura ou à titularidade da herança das propriedades familiares. Neste contexto, o ato de Raquel ao subtrair os terafim de Labão não seria apenas um gesto de devoção religiosa ou uma afronta pessoal, mas uma tentativa estratégica de assegurar para Jacó a legitimidade legal sobre os bens do seu sogro. Embora esta tese seja debatida, ela sublinha a importância dos terafim como símbolos de continuidade e autoridade dentro do clã, funcionando como uma ponte tangível entre o mundo dos vivos, a memória dos antepassados e a estabilidade económica e social da estrutura patriarcal.
Referências
- ↑ Cox, Bd; Ackerman, S (21 de outubro de 2012). «Micah's Teraphim». The Journal of Hebrew Scriptures. 12. ISSN 1203-1542. doi:10.5508/jhs.2012.v12.a11
- ↑ Bloch-Smith, Elizabeth M. (1992). «The Cult of the Dead in Judah: Interpreting the Material Remains». Journal of Biblical Literature. 111 (2). 213 páginas. doi:10.2307/3267540
- ↑ Toorn, Karel van der 1956- (1990). «The Nature of the Biblical Teraphim in the Light of the Cuneiform Evidence». The catholic biblical quarterly (em inglês). 52 (2). 203 páginas. ISSN 2163-2529
- ↑ van der Toorn, Karel (2025). Israelite Religion: from tribal beginnings to scribal legacy. Col: Anchor yale bible reference library 1st ed. New Haven: Yale University Press. ISBN 978-0-300-24811-1
- ↑ Toorn, Karel van der (14 de agosto de 2023). Family Religion in Babylonia, Syria and Israel: Continuity and Change in the Forms of Religious Life (em inglês). [S.l.]: BRILL. ISBN 978-90-04-66886-7. Consultado em 27 de março de 2026
- ↑ Arqueologia das terras da Bíblia. [S.l.]: Paulus Editora. 28 de setembro de 2022. ISBN 978-85-349-3377-3
- ↑ Putthoff, Tyson Lee (2020). Gods and humans in the ancient Near East. Cambridge New York (N.Y.): Cambridge University Press. ISBN 978-1-108-49054-2
- ↑ Toorn, K. van der; Becking, Bob; Horst, Pieter Willem van der, eds. (1999). Dictionary of deities and demons in the Bible DDD 2nd extensively rev. ed. Leiden ; Boston : Grand Rapids, Mich: Brill ; Eerdmans. ISBN 978-90-04-11119-6
- ↑ Yogev, Jonathan (2021). The rephaim: sons of the gods. Col: Culture and history of the ancient Near East. Leiden Boston (Mass.): Brill. ISBN 978-90-04-46085-0